O Sono
Da mesma forma que o oxigênio, a agua e os alimentos, o sono é
essencial a vida. Entretanto é muito mais fácil definirmos a falta de
sono do que definirmos o que é o sono. De forma alguma podemos dizer que
o sono é um mergulho na inconsciência. Em algumas fases do sono o
cérebro está tão ativo ou mesmo mais ativo do que quando na vigília.
Exemplo disto, é aquela mãe que dormindo profundamente no barulho do transito intenso de uma grande capital, desperta imediatamente se o seu bebe resmungar de forma diferente.
Um indivíduo que durma menos do que necessita, ou que tenha um sono de
qualidade, insuficiente estará promovendo o que se denomina privação do
sono. Na sociedade moderna é comum irmos dormir as 24:00 horas, em
especial no horário de verão, e acordarmos as 06:00 durante a semana. E,
nos fins de semana, pelos compromissos sociais, não é raro dormirmos
menos ainda. Esta privação crônica de sono terá consequências drásticas
para o indivíduo e não raro mortais para sua comunidade.
Seis horas
de sono diárias, para alguém que necessite de oito horas de sono, gera
um debito de sono de 2 horas a cada 24 horas. Em 4 dias este indivíduo
terá acumulado um debito de 8 horas. Este debito será cobrado. Na forma
de uma diminuição no estado de alerta, sonolência diurna, perceptível ou
não, déficits de memória, diminuição na concentração, diminuição dos
reflexos, demora no tempo de reação, irritabilidade, diminuição da
iniciativa, falta de motivação, entre outros sinais e sintomas físicos e
mentais.
Alguns dos sinais mais visíveis da privação e o
consequente débito do sono no mundo moderno são vistos nos acidentes de
trânsito. A National Highway Traffic Safety Administration (NHTSA)
americana estimou que entre 100.000 acidentes de trânsito naquele pais
em 2002, ocasionando mais de 1.500 mortes e 71.000 vítimas não fatais
são causados todos os anos por motoristas sonolentos ou com um sono
menor do que o mínimo desejado. Os custos, diretos e indiretos chegam a
12,5 bilhões de dólares. Segundo a mesma agencia 49 % dos homens e 20 %
da mulheres já tiverem algum tipo de incidente relacionado ao sono,
enquanto dirigiam.
Os motoristas de caminhão são, com frequência,
algozes e vítimas perigosas da privação de sono. Relatos como “Dr. Já
atravessei ponte sem saber como cheguei do outro lado” ou “trevo, quando
me dou conta, ele já passou”, feitos por motoristas profissionais, não
são raros. Isto ocorre porque o débito de sono será cobrado. E uma das
formas de saldarmos este débito é via microssono, onde o indivíduo,
literalmente, por frações de segundos, dorme de olhos abertos. Dirigir
privado de sono é equivalente a dirigir alcoolizado.
Acidentes de
trabalho e a perda na produtividade secundários a privação de sono ainda
são muito presentes nos dias atuais. Segundo a National Geografic News
de 24 de fevereiro de 2005, 50% dos adultos com idade entre 18 e 34 anos
disseram que a sonolência diurna interfere no seu trabalho diário. Esta
sonolência acarreta 15 bilhões de dólares em custos adicionais nos
cuidados da saúde e 50 bilhões de dólares em perda de produtividade nos
EUA.
Entre os acidentes de trabalho sono-relacionados mais conhecidos são também os mais trágicos e devastadores.
Em 28 de março de 1979 por volta das 4 horas da madrugada a unidade 2
da usina nuclear de Three Mile Island, Middleton, PA, EUA, apresentou um
defeito em uma unidade de resfriamento. O julgamento insuficiente, a
demora na tomada de decisão pelo pessoal responsável, foi crítico no
incêndio que se seguiu, configurando o que seria o mais grave acidente
nuclear em solo Americano. Neste caso, felizmente não houveram vítimas.
Também na madrugada, alguns minutos após a 01:00 hora, em 3 de
dezembro de 1984, um tanque de armazenamento da Union Carbide, uma
indústria química em Bhopal, India superaqueceu-se e, em uma sequência
de erros humanos, culminando com a fuga daqueles que deveriam acionar um
último recurso de segurança, novamente erro de julgamento e de tomada
de decisão, uma grande quantidade de isocianato de metila, um
carbamato, sob a forma de gás, foi liberado no meio ambiente, deixando
15.000 mortos e 600.000 vítimas não letais.
28 de Janeiro de 1986 o
ônibus espacial Challenger explodiu pouco mais de 1 minuto após a
decolagem matando 6 astronautas e causando um revés no programa espacial
da NASA. Na investigação que se seguiu constatou-se, que a nave havia
apresentado diversos problemas, exigindo vários dias de trabalho
extenuantes, por parte de todo o pessoal de apoio, indo além do horário
convencional. Falhas humanas e, novamente, uma capacidade cognitiva
diminuída pela horas insones, contribuíram para a tragédia.
Menos
de um mês depois, em 26 de abril de 1986, a 01:00 da madrugada, uma
explosão lança uma nuvem radioativa que cobriu a Europa e grande parte
da ex-União Soviética. O reator número 4 da Usina Nuclear de Chernobyl
na Ucrânia, deveria ter sido desligado e testado. Por um erro de
julgamento, ou falha na memória prospectiva, isto não foi feito. Durante
o teste que estava em curso, vários sistemas de segurança foram
desativados configurando dicas cognitivas lembrando que o reator não
poderia continuar ligado. O número de vítimas é desconhecido, podendo
ultrapassar a cento e dez mil vítimas até dez anos após o acidente e 5
milhões de hectares estão contaminados. A usina de Chernobyl permanecerá
radioativa por cerca de 100.000 anos.
Na madrugada de 23 a 24 de
março de 1989 o petroleiro Exxon Valdez bate em um recife na costa do
Alasca e derrama 42 milhões de litros de petróleo no mar, causando uma
das piores maré negra da história. O petróleo cru cobriu 1.100 km da
costa do Alasca, levando a morte cerca de 250.000 aves, milhares de
baleias e outros animais marinhos. No auge dos trabalhos de gestão
ambiental 11.000 funcionários, 1.400 navios, e 85 aeronaves foram
envolvidos na limpeza. E, para cada trabalhador teve que ser fornecido
equipamentos, transporte, alimentação, apoio logístico e supervisão.
Entre as causas apontadas pelo National Safety Board as duas primeiras
são, em uma tradução literal: 1) possivelmente o terceiro imediato
falhou ao manobrar o navio; 2) possivelmente devido a carga de trabalho
excessiva. Novamente, erro na tomada de decisão feita por um indivíduo
cansado e privado de sono.
Apesar das óbvias consequências da
privação do sono, o mundo moderno continua a aumentar o seu debito de
sono. Segundo um levantamento da National Sleep Foudation (EUA) de 2002,
o norte-americano médio dormia uma média de 10 horas por noite antes da
invenção da lâmpada elétrica em 1879. Hoje dorme em média 6,9 horas por
noite nos dias de semana e 7,5 horas no final de semana. Isto é muito
menos do que as 8 horas de sono recomendadas para um adulto.
Dr. Hugo J. T. Carvalho - Neurologista
Médico Neurologista com atuação em Medicina do Sono.
quarta-feira, 14 de janeiro de 2015
quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014
Os Cinco Estagios da Dor da Morte
Os Cinco Estágios da Dor da Morte
A médica suíça, Dra. Elisabeth Kubler-Ross, após
acompanhar vários pacientes com doença terminal descreveu, em 1962, no seu
livro On Death and Dying, (na morte e no morrer) cinco estágios ou fases
emocionais que as pessoas passam, ao
descobrirem-se com uma doença, que inexoravelmente os levara a morte.
Este complexo emocional ficou conhecido como Modelo
Kubler-Ross para o luto. Estes estágios acontecem sempre que alguém passa por
um momento de grande estresse emocional, seja desemprego, falência, perspectiva
de prisão, divorcio, morte de um familiar ou no caso de ter que enfrentar a
própria morte, em uma doença terminal como, por exemplo, o câncer.
Sempre que alguém tem uma grande perda emocional,
qualquer que seja, passará por estes estágios, senão todos, pelo menos pela
maioria dos seguintes sentimentos: Negação, Raiva, Barganha, Depressão e
Aceitação.
Negação: Ao receber o primeiro impacto de uma
noticia muito ruim a reação inicial é a negação. Negação e isolamento. Nós
simplesmente não acreditamos que tal fato é verdadeiro. A frase “difícil de
acreditar” define bem este estado d’alma. A intensidade desta fase é variável.
Nunca muito curta, podendo ir de algumas semanas a meses, na dependência de
como a própria pessoa e os que estão ao seu redor conseguem manejar a situação
difícil. A negação de uma doença, um câncer, por exemplo, pode atrasar o
tratamento até o ponto sem retorno, para além do qual nenhum tratamento será
eficaz.
Raiva: A medida que a realidade impõem a sua crueza
dolorosa, não é mais possível segurar a negação. Os fatos superam a capacidade
da mente negar sua existência. A raiva, então, vai surgindo nos rastros da
retirada de negação. Junto com a raiva surgem também a inveja, a revolta, e o
ressentimento. Inveja daqueles que tem saúde e juventude, inveja dos que estão
“de bem” com a vida. Pensamentos do tipo: porque eu, se existem tantas pessoas
ruins neste mundo? Os relacionamentos tornam-se problemáticos e todo o ambiente
é afetado pela hostilidade daquele que vai morrer.
Barganha: Tendo ultrapassado a negação, pela
impossibilidade de manter este estado mental e, percebendo que a raiva não
resolveu a sua situação, o indivíduo passa a realizar negociações mentais, em
geral mantidas em segredo e, na maioria das vezes, a barganha é com deus. Como
dificilmente alguém tem algo a oferecer a deus em troca do beneficio
solicitado, queira-se ou não, a barganha assume características de súplicas. A
pessoa implora que deus aceite sua oferta em troca de uma vida dedicada a
igreja, a caridade, etc. No fundo a barganha é uma tentativa de adiamento do
inevitável. Nesta etapa o paciente mantém-se sereno, reflexivo e dócil. Não se
pode barganhar com deus ao mesmo tempo hostilizar as pessoas ao seu redor.
Depressão: A depressão surge quando o indivíduo
toma consciência da sua condição. Quando já não mais consegue negar sua
impotência frente á realidade. Seja qualquer uma delas: doença incurável, morte
de um familiar, ou falência. Evidentemente, trata-se de uma atitude evolutiva.
Nada funcionou: a negação foi atropelada pela realidade, a raiva pouco
adiantou, a barganha não surgiu efeito. Um sentimento de grande perda invade a
alma. É o sofrimento e a dor psíquica de quem percebe sua realidade nua e crua.
A vida como ela é. Sem mascaras ou mentiras piedosas. É a consciência plena de
que nascemos e morremos sozinhos. Aqui a depressão assume um quadro clínico
mais típico e característico; desânimo, desinteresse, apatia, tristeza, choro,
etc.
Aceitação: Nesse estágio o indivíduo já não
experimenta o desespero e nem nega sua realidade. Esse é um momento de repouso
e serenidade antes da longa viagem. É claro que interessa, à medicina, melhorar
a qualidade da morte e da dor da perda, (como sempre tentou fazer em relação à
qualidade da vida). Deseja-se que o paciente alcance esse estágio de aceitação
em paz, com dignidade e bem estar emocional. Assim ocorrendo, o processo do
dor, do luto ou até a morte, se for o caso, poderá ser experimentado em clima
de serenidade por parte do indivíduo e, pelo lado dos que ficam, de conforto,
compreensão e colaboração para com o paciente.
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