quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

O Sono
 Da mesma forma que o oxigênio, a agua e os alimentos, o sono é essencial a vida. Entretanto é muito mais fácil definirmos a falta de sono do que definirmos o que é o sono. De forma alguma podemos dizer que o sono é um mergulho na inconsciência. Em algumas fases do sono o cérebro está tão ativo ou mesmo mais ativo do que quando na vigília. Exemplo disto, é aquela mãe que dormindo profundamente no barulho do transito intenso de uma grande capital, desperta imediatamente se o seu bebe resmungar de forma diferente.
Um indivíduo que durma menos do que necessita, ou que tenha um sono de qualidade, insuficiente estará promovendo o que se denomina privação do sono. Na sociedade moderna é comum irmos dormir as 24:00 horas, em especial no horário de verão, e acordarmos as 06:00 durante a semana. E, nos fins de semana, pelos compromissos sociais, não é raro dormirmos menos ainda. Esta privação crônica de sono terá consequências drásticas para o indivíduo e não raro mortais para sua comunidade.
Seis horas de sono diárias, para alguém que necessite de oito horas de sono, gera um debito de sono de 2 horas a cada 24 horas. Em 4 dias este indivíduo terá acumulado um debito de 8 horas. Este debito será cobrado. Na forma de uma diminuição no estado de alerta, sonolência diurna, perceptível ou não, déficits de memória, diminuição na concentração, diminuição dos reflexos, demora no tempo de reação, irritabilidade, diminuição da iniciativa, falta de motivação, entre outros sinais e sintomas físicos e mentais.
Alguns dos sinais mais visíveis da privação e o consequente débito do sono no mundo moderno são vistos nos acidentes de trânsito. A National Highway Traffic Safety Administration (NHTSA) americana estimou que entre 100.000 acidentes de trânsito naquele pais em 2002, ocasionando mais de 1.500 mortes e 71.000 vítimas não fatais são causados todos os anos por motoristas sonolentos ou com um sono menor do que o mínimo desejado. Os custos, diretos e indiretos chegam a 12,5 bilhões de dólares. Segundo a mesma agencia 49 % dos homens e 20 % da mulheres já tiverem algum tipo de incidente relacionado ao sono, enquanto dirigiam.
Os motoristas de caminhão são, com frequência, algozes e vítimas perigosas da privação de sono. Relatos como “Dr. Já atravessei ponte sem saber como cheguei do outro lado” ou “trevo, quando me dou conta, ele já passou”, feitos por motoristas profissionais, não são raros. Isto ocorre porque o débito de sono será cobrado. E uma das formas de saldarmos este débito é via microssono, onde o indivíduo, literalmente, por frações de segundos, dorme de olhos abertos. Dirigir privado de sono é equivalente a dirigir alcoolizado.
Acidentes de trabalho e a perda na produtividade secundários a privação de sono ainda são muito presentes nos dias atuais. Segundo a National Geografic News de 24 de fevereiro de 2005, 50% dos adultos com idade entre 18 e 34 anos disseram que a sonolência diurna interfere no seu trabalho diário. Esta sonolência acarreta 15 bilhões de dólares em custos adicionais nos cuidados da saúde e 50 bilhões de dólares em perda de produtividade nos EUA.
Entre os acidentes de trabalho sono-relacionados mais conhecidos são também os mais trágicos e devastadores.
Em 28 de março de 1979 por volta das 4 horas da madrugada a unidade 2 da usina nuclear de Three Mile Island, Middleton, PA, EUA, apresentou um defeito em uma unidade de resfriamento. O julgamento insuficiente, a demora na tomada de decisão pelo pessoal responsável, foi crítico no incêndio que se seguiu, configurando o que seria o mais grave acidente nuclear em solo Americano. Neste caso, felizmente não houveram vítimas.
Também na madrugada, alguns minutos após a 01:00 hora, em 3 de dezembro de 1984, um tanque de armazenamento da Union Carbide, uma indústria química em Bhopal, India superaqueceu-se e, em uma sequência de erros humanos, culminando com a fuga daqueles que deveriam acionar um último recurso de segurança, novamente erro de julgamento e de tomada de decisão, uma grande quantidade de isocianato de metila, um carbamato, sob a forma de gás, foi liberado no meio ambiente, deixando 15.000 mortos e 600.000 vítimas não letais.
28 de Janeiro de 1986 o ônibus espacial Challenger explodiu pouco mais de 1 minuto após a decolagem matando 6 astronautas e causando um revés no programa espacial da NASA. Na investigação que se seguiu constatou-se, que a nave havia apresentado diversos problemas, exigindo vários dias de trabalho extenuantes, por parte de todo o pessoal de apoio, indo além do horário convencional. Falhas humanas e, novamente, uma capacidade cognitiva diminuída pela horas insones, contribuíram para a tragédia.
Menos de um mês depois, em 26 de abril de 1986, a 01:00 da madrugada, uma explosão lança uma nuvem radioativa que cobriu a Europa e grande parte da ex-União Soviética. O reator número 4 da Usina Nuclear de Chernobyl na Ucrânia, deveria ter sido desligado e testado. Por um erro de julgamento, ou falha na memória prospectiva, isto não foi feito. Durante o teste que estava em curso, vários sistemas de segurança foram desativados configurando dicas cognitivas lembrando que o reator não poderia continuar ligado. O número de vítimas é desconhecido, podendo ultrapassar a cento e dez mil vítimas até dez anos após o acidente e 5 milhões de hectares estão contaminados. A usina de Chernobyl permanecerá radioativa por cerca de 100.000 anos.
Na madrugada de 23 a 24 de março de 1989 o petroleiro Exxon Valdez bate em um recife na costa do Alasca e derrama 42 milhões de litros de petróleo no mar, causando uma das piores maré negra da história. O petróleo cru cobriu 1.100 km da costa do Alasca, levando a morte cerca de 250.000 aves, milhares de baleias e outros animais marinhos. No auge dos trabalhos de gestão ambiental 11.000 funcionários, 1.400 navios, e 85 aeronaves foram envolvidos na limpeza. E, para cada trabalhador teve que ser fornecido equipamentos, transporte, alimentação, apoio logístico e supervisão. Entre as causas apontadas pelo National Safety Board as duas primeiras são, em uma tradução literal: 1) possivelmente o terceiro imediato falhou ao manobrar o navio; 2) possivelmente devido a carga de trabalho excessiva. Novamente, erro na tomada de decisão feita por um indivíduo cansado e privado de sono.
Apesar das óbvias consequências da privação do sono, o mundo moderno continua a aumentar o seu debito de sono. Segundo um levantamento da National Sleep Foudation (EUA) de 2002, o norte-americano médio dormia uma média de 10 horas por noite antes da invenção da lâmpada elétrica em 1879. Hoje dorme em média 6,9 horas por noite nos dias de semana e 7,5 horas no final de semana. Isto é muito menos do que as 8 horas de sono recomendadas para um adulto.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Os Cinco Estagios da Dor da Morte



Os Cinco Estágios da Dor da Morte

A médica suíça, Dra. Elisabeth Kubler-Ross, após acompanhar vários pacientes com doença terminal descreveu, em 1962, no seu livro On Death and Dying, (na morte e no morrer) cinco estágios ou fases emocionais que as pessoas passam, ao descobrirem-se com uma doença, que inexoravelmente os levara a morte.
Este complexo emocional ficou conhecido como Modelo Kubler-Ross para o luto. Estes estágios acontecem sempre que alguém passa por um momento de grande estresse emocional, seja desemprego, falência, perspectiva de prisão, divorcio, morte de um familiar ou no caso de ter que enfrentar a própria morte, em uma doença terminal como, por exemplo, o câncer.
Sempre que alguém tem uma grande perda emocional, qualquer que seja, passará por estes estágios, senão todos, pelo menos pela maioria dos seguintes sentimentos: Negação, Raiva, Barganha, Depressão e Aceitação.
Negação: Ao receber o primeiro impacto de uma noticia muito ruim a reação inicial é a negação. Negação e isolamento. Nós simplesmente não acreditamos que tal fato é verdadeiro. A frase “difícil de acreditar” define bem este estado d’alma. A intensidade desta fase é variável. Nunca muito curta, podendo ir de algumas semanas a meses, na dependência de como a própria pessoa e os que estão ao seu redor conseguem manejar a situação difícil. A negação de uma doença, um câncer, por exemplo, pode atrasar o tratamento até o ponto sem retorno, para além do qual nenhum tratamento será eficaz.
Raiva: A medida que a realidade impõem a sua crueza dolorosa, não é mais possível segurar a negação. Os fatos superam a capacidade da mente negar sua existência. A raiva, então, vai surgindo nos rastros da retirada de negação. Junto com a raiva surgem também a inveja, a revolta, e o ressentimento. Inveja daqueles que tem saúde e juventude, inveja dos que estão “de bem” com a vida. Pensamentos do tipo: porque eu, se existem tantas pessoas ruins neste mundo? Os relacionamentos tornam-se problemáticos e todo o ambiente é afetado pela hostilidade daquele que vai morrer.
Barganha: Tendo ultrapassado a negação, pela impossibilidade de manter este estado mental e, percebendo que a raiva não resolveu a sua situação, o indivíduo passa a realizar negociações mentais, em geral mantidas em segredo e, na maioria das vezes, a barganha é com deus. Como dificilmente alguém tem algo a oferecer a deus em troca do beneficio solicitado, queira-se ou não, a barganha assume características de súplicas. A pessoa implora que deus aceite sua oferta em troca de uma vida dedicada a igreja, a caridade, etc. No fundo a barganha é uma tentativa de adiamento do inevitável. Nesta etapa o paciente mantém-se sereno, reflexivo e dócil. Não se pode barganhar com deus ao mesmo tempo hostilizar as pessoas ao seu redor.
Depressão: A depressão surge quando o indivíduo toma consciência da sua condição. Quando já não mais consegue negar sua impotência frente á realidade. Seja qualquer uma delas: doença incurável, morte de um familiar, ou falência. Evidentemente, trata-se de uma atitude evolutiva. Nada funcionou: a negação foi atropelada pela realidade, a raiva pouco adiantou, a barganha não surgiu efeito. Um sentimento de grande perda invade a alma. É o sofrimento e a dor psíquica de quem percebe sua realidade nua e crua. A vida como ela é. Sem mascaras ou mentiras piedosas. É a consciência plena de que nascemos e morremos sozinhos. Aqui a depressão assume um quadro clínico mais típico e característico; desânimo, desinteresse, apatia, tristeza, choro, etc.
Aceitação: Nesse estágio o indivíduo já não experimenta o desespero e nem nega sua realidade. Esse é um momento de repouso e serenidade antes da longa viagem. É claro que interessa, à medicina, melhorar a qualidade da morte e da dor da perda, (como sempre tentou fazer em relação à qualidade da vida). Deseja-se que o paciente alcance esse estágio de aceitação em paz, com dignidade e bem estar emocional. Assim ocorrendo, o processo do dor, do luto ou até a morte, se for o caso, poderá ser experimentado em clima de serenidade por parte do indivíduo e, pelo lado dos que ficam, de conforto, compreensão e colaboração para com o paciente.